Depois da Última Sessão

Viper 69
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A clínica estava quase completamente escura quando Laura e Rafael deixaram a sala. O silêncio no corredor parecia diferente naquela noite, como se carregasse um segredo que apenas os dois conheciam.

Laura caminhava a poucos passos dele, ajustando a blusa, ainda sentindo o corpo quente, a respiração mais lenta do que o normal.

Rafael segurava o blazer na mão, com o colarinho da camisa ainda aberto. Havia algo no jeito dele — aquela tranquilidade pós-adrenalina, misturada com um domínio silencioso — que fazia o estômago dela revirar.

Eles pararam na porta de saída.

— Vai conseguir dirigir? — ela perguntou num tom leve, quase provocativo.

— Depois do que aconteceu ali dentro… — ele sorriu, aproximando-se — …acho que sim. Mas não garanto que vou pensar em outra coisa durante o caminho.

O olhar dele desceu lentamente pelas feições dela, como se memorizasse cada detalhe. Laura sentiu o corpo responder, quente, acessível, como se a tensão ainda estivesse ali, pulsando entre os dois.

Rafael deu um passo à frente, reduzindo a distância.

— Laura… isso não foi só um impulso. Não pra mim.

Ela respirou fundo, encarando-o.
O brilho insistente nos olhos dele dizia a mesma coisa que o corpo dele naquela sala: intenção.

— Eu sei — ela respondeu. — E também não foi pra mim.

Ele sorriu de um jeito discreto, satisfeito, quase perigoso.

— Tem planos amanhã? — perguntou, como quem já sabe a resposta.

— Depende — ela provocou. — Você tem algo em mente?

— Tenho algumas ideias — disse ele, com aquela segurança calma que mexia com ela mais do que deveria. — Mas nenhuma delas envolve consultório.

Laura mordeu o canto do lábio, sem perceber.

— Então me surpreenda.

Ele aproximou a mão do rosto dela, tocando de leve o queixo, guiando o olhar dela para o dele.

— Amanhã. Oito da noite. Eu passo pra te buscar.

O dia seguinte foi uma tortura agradável para Laura. Ela tentou se concentrar no trabalho, nas sessões, nos pacientes… mas a cada pausa, a mente voltava para Rafael. Para o olhar dele. Para a tensão que ainda parecia grudada na pele.

À noite, quando ele estacionou em frente ao seu prédio, Laura já estava pronta. Um vestido simples, mas elegante, tecido leve, cor escura, que realçava o tom da pele e o desenho do corpo sem esforço.

Quando ela desceu, Rafael saiu do carro para abrir a porta — um gesto educado, mas cheio de intenção.
E, por um instante, ele apenas a observou.

— Você ficou… — ele hesitou, aproximando-se. — Perigosa.

Ela riu baixinho.

— Você também.

O restaurante que ele escolheu era sofisticado, mas íntimo: luz baixa, música discreta, mesas bem espaçadas. Nada exagerado — apenas o suficiente para deixar claro que ele tinha pensado em cada detalhe.

A conversa fluiu com naturalidade.
Nada forçado, nada tenso — e, ao mesmo tempo, tudo carregado de subentendidos.

Em certo momento, enquanto Rafael falava sobre uma viagem de trabalho que odiara, Laura percebeu algo no jeito dele olhar: ele mantinha o foco nela com uma atenção que fazia o resto do ambiente sumir.

— Você sempre olha assim pras pessoas? — ela perguntou, inclinando-se um pouco.

— Só quando quero muito conhecê-las — respondeu ele, sem desviar.

Laura sentiu a pele arrepiar.

Depois de um tempo, o jantar perdeu importância. A conexão ocupou o lugar.
Toques sutis começaram a acontecer:
um dedo que roçava na lateral da mão,
um toque no joelho sob a mesa,
um deslizar lento quando ela puxava a taça de vinho.

Nada explícito.
Mas carregado.

E cada pequeno toque fazia a temperatura subir um pouco mais.

Ao saírem do restaurante, a noite estava quente. Rafael a conduziu pela cintura até o carro — o toque firme, natural, como se fosse o lugar onde a mão dele deveria estar.

Quando entraram, ele não ligou o motor imediatamente.

Ficou olhando para ela.
De perto.

— Tem algo que eu queria perguntar — disse ele, com a voz baixa.

— Pergunte.

— Você se arrependeu de ontem?

— Nem um pouco — ela respondeu, sem hesitar.

O sorriso dele apareceu de novo — aquele sorriso lento, satisfeito, que dizia mais do que mil intenções.

— Ótimo — disse ele. — Porque eu fiquei pensando nisso o dia inteiro.

Laura o encarou por alguns segundos… e então deslizou a mão até o antebraço dele.
Devagar.
Deliberadamente.

— Eu também.

Rafael encostou o corpo no encosto do banco, como se estivesse se segurando para não avançar mais rápido do que deveria.

— Se eu te levar pra casa agora — ele murmurou — não sei se vou conseguir controlar o ritmo das coisas.

Laura se aproximou, o perfume dela preenchendo o espaço pequeno do carro.

— Quem disse que eu quero que você controle?

A respiração dele parou por meio segundo.

E nesse intervalo, o clima dentro do carro mudou completamente.

Rafael ergueu a mão, segurando a nuca dela com delicadeza firme, guiando o rosto de Laura até o dele. O beijo começou devagar — quente, profundo, cheio de promessa.
E então cresceu, ganhando intensidade, como se os dois estivessem retomando a tensão deixada na sala da clínica.

Quando se separaram, os dois estavam com a respiração acelerada.

— Vamos — ele disse, finalmente ligando o carro, sem esconder o desejo na voz.

O caminho até o apartamento dela foi rápido demais. O tipo de silêncio que se instalou no carro não era vazio — era carregado, cheio de expectativa.
Cada olhar que trocavam parecia um convite.

Assim que chegaram, Laura destrancou a porta do apartamento, mas antes que pudesse acender a luz, Rafael deslizou a mão pela cintura dela, puxando-a de leve para si.

— Ainda tem certeza? — ele perguntou, a boca próxima demais da dela.

— Absoluta.

Ele sorriu, encostando a testa na dela.

— Então me deixa continuar o que começamos ontem.

A luz do corredor iluminava apenas o suficiente para revelar o contorno dos corpos, a proximidade, o calor que já não cabia mais em sugestão.

Laura fechou a porta atrás de si.

O resto da noite…
ninguém do prédio precisava saber.

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